as pedraS . . .

as coisas maiores são
os gestos menos abrangentes

formigas sabem folhinhas são
esforço de todo formigueiro

mas há botões
de desejos natimortos
em hortos tortos do fazendo
e
uma safra de sorrisos
é muito perigosa ao país




uma salva de silêncio fecha o dia

a rua abre como um fecho éclair
facho claro feixe de luzes de latarias
fluida como modorra que corre no olhar
do motorista

o corpo inerte do chauffeur
é o próprio corpo o fim último do labor
entalado nos lábios da rua,
o corpo grita num abafo
mas engrena.

foi dada ao homem a chave do dia
porém as portas intransponíveis dos vãos de ruas
abertas
quando cada movimento um aborto
uma consciência se acomoda
paraplégica numa poltrona
e temos gamas de cores gritantes nas telas
tênues tons de timpânicas vozes
a consciência entalada
na abertura da rua como fecho.

há lamúria por trás do sorriso
há uma faca sangrando a luz
pontiaguda no cerne da luminescência
há uma salva de silêncio porém
no dia que se abre,
um clarim claro
no escuro-ainda



POMBOS


a tarde é chapa de metal escovado

na cornija de ferro alinhados,
arrulham aço
e ciscam ranhuras de zinco.

um homem parado no sinal
toma chuva
enquanto um táxi toma café
e um ambulante toma cinco real.

o dia veste malha
de gotas miúdas
trançadas na queda.
a menina veste um sorriso
e um lábio vermelhinho
pra esquentar os dentes.

limalhas de ferro na moela
trituram o dia com facilidade.

um transeunte pensativo,
voando gaivota,
toma titica.

pombos digerem a rigidez das coisas
e cagam
em nossas cabeças.
sacodem a cauda
e alçam vôo



PELORINHO

Pelas ladeiras do Pelô
Perambulam todas as cores
Peles e pandeiros
Pessoas e tambores

Pelorinho não mais existe
Passado pelo tempo desgastado
Porém o calçamento resiste

Pneus agora terminam de polir
Pedras que testemunharam pretos
Pagando por erros alheios
Prostrados no vigor da raça

Pedintes se misturam à multidão
Povo que suporta o legado
Personagens atuais do passado triste
Prole de quem sobreviveu à escravidão
Prisoneiros de um Brasil manchado
Proscritos no país das migalhas
Pretos
pobres
Pedras
Pisadas por tênis e sandálias





perante a grandeza de tudo somos nada
e boquiabertos bebemos estrelas
e solfejamos o silêncio em devota adoração
e cutucamos o intangível como que na infância
e tudo é apenas tato.

porque carregamos um vazio
tudo nasce de nós
e somos nada.

a tangibilidade de tudo é o parentesco
entre todas as coisas,
e ela não tem corpo,
como o nada.

a presença de Deus é uma ausência absoluta