as pedraS . . .

O canário brotou do pensamento
E como uma superfície líquida
Ele foi música divina
Cristal de penas e pulos
Pintura sem moldura numa parede silenciosa

Com as gotas de sua melodia
Nasciam botões de luz por toda a sala
E o tempo de uma tarde parava
E somente só havia o presente
Onde uma criança brincava pela tarde
Eterna e dourada tarde de uma vida inteira


Nenhum abismo se abria sob os pés
Nem do canário e nem do menino
E os botões de luz viraram gotas
E até hoje refratam o sol
Nesta ante-sala a céu aberto da vida


(15 de julho, 2017)

















(Rooms by the sea - Edward Hopper, 1951)


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[LIMIARES...]


ontem a galeria fedia
fedia de um homem na charutaria
ainda no balcão de vidro
no limiar da rua
esse homem fedia
de um cheiro insuportável, acre
um homem no limiar da vida
entre uma esquina e outra
pêndulo sem cordão
objeto de escárnio
de outros que sem coração
não lhe darão nem um banho
nem uma moeda sequer

ontem a galeria fedia
mas fedia não só de uma podridão
mas fedia de uma verdade crua
não nua porque vestida
vestida de uma roupa batida
batida, pútrida e cagada
numa pele batida, imunda, surrada
retirante de um êxodo interno
homem que criou raízes no fundo
tão-somente no fundo
de sua imundície:
seu lar sem paredes,
seu asilo, seu mundo



(Julho de 2013)