as pedraS . . .

RESSONÂNCIAS



1.

algumas cadeiras rangem
de uma forma diferente como
se em outra encarnação das coisas
elas tivessem sido cordames
de embarcações fantasmagóricas

2.

se as paredes têm ouvidos
eu não sei...
mas que têm vozes presas
em seu arcabouço, isso têm.
daí toda a sua solidez
no tanto de vozes
que tiverem



IN: Deus, e outras coisas, Acervo EDA



talvez
palavras demais debates demais
projetam-nos para fora e muito
longe
e
longe assim demais
faz-se dura difícil árdua a
volta.

quem você era antes
dessas palavras todas que lhe cercam
essa alma que se esconde
por detrás de tantas sílabas
cor de cinza
cor de telha
cor de tudo-quando-foge
?

.
31 de outubro de 2014



[ RUGOSIDADES]


pode ser que uma viela
ao fundo
exploda em pétalas carmim
nestas cidades históricas
onde fantasmas posam
para fotos de turistas.

pode ser que uma árvore
frondosa
suporte um bando de pardais
que se aninham ocultos
para cagar na cabeça
dos inconfidentes.

pode ser que uma rua
deixe que lhe cruze
uma dama com vestes de outrora
a jogar charme para um mancebo
que sorvia café à sombra do alpendre.

-- prodígios do espaço urbano
com suas rugosidades

.
Rio, outubro de 2013.


SEMELHANTES




os semelhantes falam uma língua muda
quando, degredados, se encontram na urbe
e, apenas com os olhares, cumprimentam-se
e, na língua nativa se reconhecem
compatriotas de outro lugar

respeitam-se e, mesmo que,
de ofícios distintos
prestam mútuas reverências
com gestos invisíveis aos outros transeuntes.

e há mendigos, há poetas, há ladrões,
todos degredados de uma pátria que não é
essa pátria ensolarada que os confina

e há bêbados, e músicos, e seguranças de padaria,
e engraxates, e garis, e mulheres-loucas
todos degredados neste presente urbano, alheio,
todos degredados de sua pátria longínqua, dentro...


TERRITÓRIOS



há vários territórios dentro
de um território só e
o importante é se a alma habita

habitar não é ter lugar
mas apenas estar
no espaço de um tempo
onde se sente no quando
habitando em si mesmo
e
mesmo sem lugar
se encontra
e talvez até um endereço fixo
coincida

há vários territórios dentro
desse território tempo
casa de quem apenas está
junto de si próprio e não alheio,
ao tempo de uma ação
e em sincronia
com os passos invisíveis da alma
por entre cômodos desta casa invisível
de nossa residência-mesmo.

e não há logradouro para nossa habitação


(Rio, 18 de setembro de 2013)


um desprendimento, um desprendimento tanto
das amarrras dos desejos
e esse pássaro preso do espírito ascende aos céus
de céus que estão aqui em baixo mesmo


.
3 de outubro de 2013




METEOROLOGIA



aqui, em baixo desse duelo de sol e nuvem
devemos perceber o quanto água somos
e aprender a sentir quando
uma tempestade se aproxima


LEVEZA



a dor de uma falta
botões natimortos e belos
no jardim que havia.

e nuvens pesadas passam
alheias,
imunes

.

PÉTALA

: .
um pouco de sinceridade
seria uma pétala de cor
nesse charco escuro denso
que ficou

GOLPE DE VISTA


sou apenas movimento
o corpo que você vê
não é o corpo que se vê

desastre do olhar




.

SEDA


aquela folha minha ilha
e o que mais couber ao olho

cada pétala uma tarde
ao que pólen toda luz.

lagartas são meus dedos
na fria seda de seu rosto




27 de dezembro de 2007


ABISMO



preciso de um lance
que me jogue
pra fora do alcance
de mim mesmo

uma estação fora do mapa
um trem fora do trilho
um espaço fora do tempo
um tempo fora de si

preciso de um lance
que desate o laço
de minha lucidez e
de todo santo-dia...

preciso dessa rigidez do delírio
contra a dureza das convenções

preciso
de flores plantadas no abismo
até que um rio corra por entre
esse vazio duro que nos cerca.

o abismo

.
.

.

mudar o modo de ver
modular o mundo do ver
até que nâo se veja mais
aquele mundo
que nâo muda ao nosso ver

: ARTE?...

COMPOSIÇÕES (Haicais)


Composição

algo de algazarra a água
o céu de estrelas bailantes
o bambuzal dobra o tempo



Composição mista I


gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa limpa com atraso
mendigo na rua contrapé de vento



Composição mista II


gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa estende o dia no varal
mendigo na rua contrapé de vento



in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA

POLÍMEROS



há várias vidas dentro de uma vida.
o que não há é uma alma de plástico
pra substituir nossa alma
em caso de desgaste excessivo




(HOMENAGEM A COCTEAU E MICHEL ÂNGELO)



coração terminado em pedra
calcário banhado do mar morto
como podes ainda bater no peito?



RESSONÂNCIA


todo mal que está em volta
se intensifica e se reforça
quando encontra outro mal
que está dentro da gente





DAS DIPLOMACIAS...

o tempo todo somos convocados
a ser diplomatas em nosso país estrangeiro
onde somos naturais e forasteiros
dentro de nós
fora de tudo que é nacional

e tudo em volta é rústico e alheio
os modos duros e as intenções resinosas

de mesquinhez e interesses...

e somente uma embaixatriz da delicadeza
pode nos dar a certeza
de que ainda podemos ser nós,
e estar nem sempre estando
mas nunca deixar-se muito tempo
fora de si mesmo e em órbita
na urbe romana e estrangeira
de nossa terra natal



(Rio, maio de 2012)

3 HAICAIS...

Xadrez

um gatinho preto
um gatinho branco
o tabuleiro a céu-aberto

.
,

Reflexo

riso estampado no vidro
tempo de areia líquido
um beijo estala vivo

.

Templo

no alto do morro o lago
a pele fria do tempo
o gato crespo ressona



in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA
olhos de ameixas maduras fendidos ao Tudo.

bebia café pelas orelhas hirtas
e propunha novas tramas com novelo de lã:
destecia o destino,
emaranhava o futuro.
o presente era malha vazada
à luz de possibilidades.

sabia da preguiça por herança.

seu pai fora mestre de obras:
construía alamedas de telhas,
ensinava passarinho a morar melhor



IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.

PELÍCULA



sapo novo com'estrelas no lago.
seu mergulho cadente
na orquestra cintilante
repente
na harmonia celestial.

sapo velho masca goma do tempo
estourando bolas de acaso
onde não momentos.

ninguém disse que estrelas são vagalumes mortos.

um peixe belisca a tez do céu

o maestro de mármore ondula




IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.

BISTRÔ



tábua de frios...
e o mendigo lá fora

chove.

restaurante cheio,
todos comem,
ninguém se comove...

tábua de frios




PARA O DEUS QUE OLHA DE ESGUELHA



porque em uma hora nascer,
já é ter sido em alguma hora nascido,
mesmo que em hora tão longínqua,
longe tanto que impossível de ser

e o tempo vem, implacável, devorar
todas as horas
devorando todas todo-tempo,
por fim devorando a si próprio,
cujo corpo é de horas feito

o tempo é esse algo impossível,
porque nasce para dentro de si mesmo,
é uma cobra, sim, que se come a si próprio
` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` sempre,
que se engloba no tanto de ponto,
que na fome de si próprio,
atinge o mínimo absoluto,
e continua oco
e sua pele é cercada de suas vísceras,
e suas vísceras têm muito gosto de hora




IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.

BIODEGRADÁVEL



no mangue, muitos sacos plásticos pousam nas árvores
ao fim do dia
e tudo fica salpicado de belas garças.

quando garrafas pet aglomeradas vêm às margens,
os ribeirinhos lançam as redes
e é lindo de ver o cardume verdinho prateando.

e tem carcaças de automóveis nodosas que dão até ninhos
com copas de capôs que abrigam da chuva.

nas águas gordas da baía se vê o bailado dos entulhos,
momento em que as crianças se debruçam das barcas
para contemplar o nado sincronizado e eterno dos botos




IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.