as pedraS . . .

INFINITO




e mergulhávamos no céu como sapos mergulhavam no lago
e éramos tanto estrelas quanto o corpo da noite
e sua pele de lágrimas infinitas congeladas no tempo
e seu torpor de eternidade quanto crianças distraídas

nossos olhos metálicos como o firmamento
e um silêncio de eras que mora em nós e espera
um silêncio de estrelas e lago
pra mergulhar como sapos no escuro do tempo.

somos o infinito quando abrimos mão de tudo


                                               2 de dezembro de 2012.

ENQUADRAMENTO



pela manhã
frio de serra
janela cerrada
a pele do dia gélida
xícara à espera do café

tilintam talheres na cozinha
um tílbure toca aros e pedras
na memória do vidro

o senhorio sabe de cristais e lustres
sua senhora conhece de castiçais
um cachorro ignora de vento

mundo em moldura
tempo em quadro de celulose.

janela erguida:
um aceno ao cocheiro
uma buzina de fusca,
esticar de correias
a espreguiço matinal







(Janela em Ouro Preto, em agosto de 201?)

RESSONÂNCIAS



1.

algumas cadeiras rangem
de uma forma diferente como
se em outra encarnação das coisas
elas tivessem sido cordames
de embarcações fantasmagóricas

2.

se as paredes têm ouvidos
eu não sei...
mas que têm vozes presas
em seu arcabouço, isso têm.
daí toda a sua solidez
no tanto de vozes
que tiverem



IN: Deus, e outras coisas, Acervo EDA



talvez
palavras demais debates demais
projetam-nos para fora e muito
longe
e
longe assim demais
faz-se dura difícil árdua a
volta.

quem você era antes
dessas palavras todas que lhe cercam
essa alma que se esconde
por detrás de tantas sílabas
cor de cinza
cor de telha
cor de tudo-qdo-foge
?

.
31 de outubro de 2014



pode ser que uma viela
ao fundo
exploda em pétalas carmim
nestas cidades históricas
onde fantasmas posam
para fotos de turistas.

pode ser que uma árvore
frondosa
suporte um bando de pardais
que se aninham ocultos
para cagar na cabeça
dos inconfidentes.

pode ser que uma rua
deixe que lhe cruze
uma dama com vestes de outrora
a jogar charme para um mancebo
que sorvia café à sombra do alpendre.

-- prodígios do espaço urbano
com suas rugosidades

.
Rio, outubro de 2013.


SEMELHANTES




os semelhantes falam uma língua muda
quando, degredados, se encontram na urbe
e, apenas com os olhares, cumprimentam-se
e, na língua nativa se reconhecem
compatriotas de outro lugar

respeitam-se e, mesmo que,
de ofícios distintos
prestam mútuas reverências
com gestos invisíveis aos outros transeuntes.

e há mendigos, há poetas, há ladrões,
todos degredados de uma pátria que não é
essa pátria ensolarada que os confina

e há bêbados, e músicos, e seguranças de padaria,
e engraxates, e garis, e mulheres-loucas
todos degredados neste presente urbano, alheio,
todos degredados de sua pátria longínqua, dentro...


TERRITÓRIOS



há vários territórios dentro
de um território só e
o importante é se a alma habita

habitar não é ter lugar
mas apenas estar
no espaço de um tempo
onde se sente no quando
habitando em si mesmo
e
mesmo sem lugar
se encontra
e talvez até um endereço fixo
coincida

há vários territórios dentro
desse território tempo
casa de quem apenas está
junto de si próprio e não alheio,
ao tempo de uma ação
e em sincronia
com os passos invisíveis da alma
por entre cômodos desta casa invisível
de nossa residência-mesmo.

e não há logradouro para nossa habitação


(Rio, 18 de setembro de 2013)


um desprendimento, um desprendimento tanto
das amarrras dos desejos
e esse pássaro preso do espírito ascende aos céus
de céus que estão aqui em baixo mesmo


.
3 de outubro de 2013