as pedraS . . .

SE A MENTE DESEJA PERDER-SE
PERCA-SE
QUE EU NÃO MAIS ME ILUDO
E
ASSIM
NÃO ENTRO MAIS NO SEU JOGO
ILUSIONÁRIO E LÚDICO
DE FAZER-
ME
PERDER



  (27 de dezembro, 2019)

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tempo suspenso tarde de sol
uma poeira dourada páira
há na pele um tato de eletrostática
ou apenas um momento de quietude 
na 
alma

tempo casa na tarde de sol ameno
eu habito de corpo e alma essa tarde
não arde na pele a veste do sol
não poluem os olhos a poeira luminescente
somos eu acompanhado de mim mesmo
mesmo numa tarde chuvosa como esta
uma tarde com o sol
na 
alma



( julho de 2019)
A natureza nos olha
E olha por nós a divindade

Na vastidão de um campo
A casa aberta do espírito

Um homem sob o teto do mundo
Pilar entre dois universos...

A linguagem muda de tudo
E no Silêncio todo o dito

Há sempre estrelas no firmamento
Mas o céu somente ao Sol serve
Enquanto dura o dia

Mas eterna será a Sua luz
Quando guardada no pensamento...

E à noite haverá somente escuro
Para os olhos cansados do dia


(Cambuquira,  3 de maio de 2018)






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Re-habitar o Silêncio
Viver em seu espaço interior

Ruído promove ruído
E o ser solitário é corroído
Pelo engano dos sentidos

Para quem não medita
Sozinho é o eremita
E sólida a solidão


(10 de março de 2020)

[CHARUTARIA]



mas ainda há tempo ainda há
esse espaço de tempo por entre prédios
por onde a Lua mergulha adentro
e vai morar na mão do menino

ainda há esse espaço onde germina
essa planta prata muda dentro
essa alma menina-viva argento-vivo
pura vítrea cristalina
tanto matéria quanto sublima


e no entanto um mar se impõe a falar
aqui nessa cidade costeira um mar
que dita a regra do andar essa mãe
sempre gorda grave grávida densa
esse tempo denso e fluido tempo lento e
grosso que se chama mar

e numa tabacaria aqui em Copa nesse
espaço aromático e suspenso no tempo
é possível esconder-se do movimento o
tormento de um bairro que nunca para


( 24 de janeiro de 2013)











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Um cafezinho na charutaria, e
no que hei de pensar?
Alguma metafísica de Pessoa talvez,
ou,
a distração do momento...

A distração é Deus

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Rio, 8 de maio de 2015
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Há alguns minutos atrás eu estava um tanto chumbo, por dentro...
Peso na consciência, distorção do olhar...
As palavras continham essa densidade do chumbo
e envenenavam o néctar divino da vida com partículas pesadas
tal como whisky das destilarias clandestinas em uma Chicago de outrora
manipulado por "gangsters" e outros tipos que habitavam os porões e as sombras...
Mas, neste vivo-agora, neste presente atento e consciente de se estar
Movo por meio das palavras meu espaço interior
Até que deste cadinho transmute por completo
Ch
umb
o

em

Ouro





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( 30 de novembro de 2019)
Um poema deve ter sempre o
Tempo de um chá
E ao mesmo tempo guardar
Sua essência quase não matéria
Substância etérea que somente
Na alma se sente

Um poema deve ser a
Mais alta ousadia perante
Um mundo que não mais nos permite
Parar

Um poema deve ser esse mergulho
Para dentro de si próprio
Tempo que se suspende
Como o tempo de se sorver
Um chá


( 3 de abril de 2019)
Maravilhosa a impetuosa chuva que desceu sobre o Rio agora!!...
A chuva que sempre confere movimento
Ao concreto estático e estúpido desta metrópole

E esta que agora chega castiga no fundo da indolência
Mas embora severa e fustigante, ela não muda a consciência
Deste povo que se esquece de tudo num instante,
Principalmente durante
Uma simples partida de futebol

Mas
Tenhamos os ouvidos atentos a esta chuva
Plena de frases rítmicas que tanto comunicam
No tanto que as almas sensíveis entendem

Palavras são sempre desnecessárias...

Encerro então este poema


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(20 de março de 2019, 20:45h)
Não tenho tempo para futilidades
Meu passatempo é viver meu tempo
E meu passatempo é elaborada ciência
Interior
Alquimia secreta de meu Silêncio

Meu Silêncio é meu templo e meu recolhimento
Meu acolhimento e meu tempo
Presente contínuo e meu contínuo presente

Sou no tanto que sempre estou
Sou neste constante estar em movimento
Neste constante e resoluto e sereno transmutar

Não sou nenhum dos corpos fora
De meu corpo habitante do Silêncio

E quando falo
É apenas um arauto dentro de mim
Que anuncia


( 8 de dezembro de 2018)



escrever...
porque tenho expressão própria
e uma impressão digital marcada no espírito
polegar de Deus ou qualquer outra coisa
causa
de tudo isso aqui ser

escrever...
porque é necessário um testemunho
dessa história de tudo
e fazer nascer deste mundo mudo
uma voz que diga que mundo é esse
calabouço de um mudo alvoroço
alvoroço mundo
calado

escrever...
pelo menos até o fim dessa página
para que eu tenha hoje
uma simples fotografia de mim mesmo


Botafogo, 2 de janeiro de 2018
O poeta não precisa ser um ébrio
Ou um desvairado bukowsky bêbado e obsceno

O poeta pode ser o menos provável careta
Sentado à mesa de um café discreto
Bebendo uma água mineral
Sem roupagens de artista louco
Nem feições de um sofrido insone

O poeta é mais um estado de espírito e o próprio espírito
Do que esse corpo físico que apenas sofre e sente

O poeta é este anônimo inconformado
Não com seu anonimato irrevogável e severo
Mas com a loucura inescrupulosa da humanidade nesse mundo

O poeta de verdade é mais um mero transeunte
Cumprindo seu trânsito na superfície terrestre

Porém suas palavras contêm essências
Que a outros sentidos nos despertam

Mas são poucos os espertos que lhe dão ouvidos
E acordam para uma existência verdadeira


( Rio, 5 de fevereiro, 2019)
um cão
velho
na calçada fareja
fareja fareja e pensa
enquanto sua dona
paciente
aguarda por sua deci-
são...

tempo eterno o do cão
consciência
-- deva --
não cindida pela
razão


.
Rio, 30 de maio de 2018
.

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A poesia é simplesmente esta fotografia
Dessa tarde que foi só
De chuva e sol e outros tons etéreos
Que compõem o Éden e outros lugares idílicos
Como o lugar de uma tarde consigo


A poesia tem de ser este instantâneo
Onde cabe todo o tempo do mundo
E de tanto tempo assim túrgida
Tempo nenhum se pesa no pensar
No passar do tempo de uma tarde sem tempo
Uma tarde apenas de se estar
Consigo




( Rio, janeiro de 2018)

E, neste momento em que vivemos
Faz-se urgente não um movimento para fora
De
Si
Mas para dentro de nós mesmos onde
Um sol espera só que para ele olhemos

E assim de olhos fechados mas espírito aberto
Por certo toda mudança é possível
Porque é no plano do invisível
Onde tudo se transforma

Toda transformação dentro
Ressoa em transformação fora
Infalivelmente


.

Rio, 29 de maio de 2018

O homem não pode igualar-se a Deus
E dominar seu próprio mundo
Embora possua o homem em parte
A mesma matéria de Deus no espírito
Centelha divina que o homem ignora
Seu tanto de Deus que a tudo dispensa
Mas que sempre ignorado
Leva o homem a querer elevar-se
Quando elevado ele já o é por natureza
Porém se desconhece
E sua mente cega tece
Desejos e planos de grandeza


*   *   *

Sejamos sem ambições como ervas no campo
Que apenas existem e nisso já há tanto
Sejamos apenas e sendo somente estejamos
E nos saibamos completos e plenos
Tal como ervas no campo
Vibrando certas no certo de sua existência




(23 de fevereiro de 2018)

ESCRITA



(a)

a faca lamenta da pena
o bico cheio de grãos
o sumo que vai
correr no sulco do que
antes era a planície
a plana meninice
do espaço lactante

a pena ao pino
fecunda,
façanha de faca,
pingo, pedra, lenha, gota
negra da proteína de tudo
inunda um mundo diminuto de um universo de possibilidades

canta em cântaros o ponto
na expansão esférica do que pode
expandir
extravagante via-láctea


(b)

o vento grava no horizonte
seu testemunho de geografia,
toda paisagem é fotografia
da paisagem escrita na gente


(  )

recolhido à telha
do talhe o vento
dorme a gato
cuneiforme e reticente
e acorda pro entalhe
do que no sonho era novelo

e vai de novo
a zelo
a zero

cada ser uma palavra
no discurso infinito do tempo




IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
Há a lembrança de um sonho, agora
Uma lembrança enevoada, no entanto
Como restasse apenas a aura dessa lembrança
E as imagens todas esfumaçadas embora nítidas
E embora nítidas, distantes
E assim distantes, míopes
Embora míopes não sejam meus olhos
Porém, entre o mundo físico ilusório
E o mundo oculto dentro, real
Real no tanto de imaterial que seja,
Entre esses dois mundos
Uma distância absurda
Um hiato infinito como o de um átomo
Na palma da mão
Entre esses dois mundos neste lapso
Imensurável e inconcebível lapso
A Poesia
E esse rastro no infinito

Mas, quanto à lembrança daquele sonho...

Deixá-la névoa



( 16 de setembro de 2017)
          e gastava horas em
          suas grandiosas batalhas de
          xadrez
          contra reis
          de países fronteiriços

mas qual oponente
se assoma numa partida
senão aquele que
em nós se abriga?

        no tabuleiro jaz o jogo
        mas é dentro de nós que
        se faz o fogo
        de toda lida

                               e realmente não se ajusta
                               qualquer rixa qualquer justa
                               num jogo de xadrez



                                   (Rio, 9 de março de 2016)
O canário brotou do pensamento
E como uma superfície líquida
Ele foi música divina
Cristal de penas e pulos
Pintura sem moldura numa parede silenciosa

Com as gotas de sua melodia
Nasciam botões de luz por toda a sala
E o tempo de uma tarde parava
E somente só havia o presente
Onde uma criança brincava pela tarde
Eterna e dourada tarde de uma vida inteira


Nenhum abismo se abria sob os pés
Nem do canário e nem do menino
E os botões de luz viraram gotas
E até hoje refratam o sol
Nesta ante-sala a céu aberto da vida


(15 de julho, 2017)

















(Rooms by the sea - Edward Hopper, 1951)


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[LIMIARES...]


ontem a galeria fedia
fedia de um homem na charutaria
ainda no balcão de vidro
no limiar da rua
esse homem fedia
de um cheiro insuportável, acre
um homem no limiar da vida
entre uma esquina e outra
pêndulo sem cordão
objeto de escárnio
de outros que sem coração
não lhe darão nem um banho
nem uma moeda sequer

ontem a galeria fedia
mas fedia não só de uma podridão
mas fedia de uma verdade crua
não nua porque vestida
vestida de uma roupa batida
batida, pútrida e cagada
numa pele batida, imunda, surrada
retirante de um êxodo interno
homem que criou raízes no fundo
tão-somente no fundo
de sua imundície:
seu lar sem paredes,
seu asilo, seu mundo



(Julho de 2013)
silêncio profundo
silêncio do tamanho do mundo
de onde nenhum passarinho pode sair

silêncio profundo
silêncio do tamanho do tempo
árvore na campina carregada de anjos

silêncio profundo
silêncio azul de um prelúdio
nuvens e canários à espera



(3 de agosto de 2017)
Estou começando a aceitar,
Aceitar sentir as coisas no fundo
As coisas fundas no fundo da alma

Estou começando a permitir
O mergulho no momento denso
O peito comprimido e o corpo oprimido
Dentro de uma atmosfera densa

Estou evitando fugas
Porque já descobri
Que fugas não existem

Estou vivendo a solidão quando
A solidão assim insiste
E aprendendo a viver a companhia
Quando os companheiros vão surgindo
Ao caminho

Às vezes percebo as facetas de Deus
E toda a sua generosa dualidade:
Há momentos em que somos habitantes
Do tempo e do lugar que nos cerca
E há momentos em que somos forasteiros dentro
Desses mesmos lugar e 
Tempo

Somente existe o momento
E se consigo sentir e acatar isso
Se desfaz esse tormento
De se sentir alheio e estrangeiro
A tudo


.

A bondade de Deus é mostrar-nos o sofrimento e
O seu doce reverso
Quando neste agora
Escrevo uns versos ou
Algo do gênero
E passo a morar pleno no tempo
Mesmo que momentaneamente



(24 de junho de 2017)
...

Fora da Poesia eu quero somente o silêncio
O silêncio puro, o silêncio sagrado

Aqui nesta urbe tudo me conturba
Tudo me tumultua, me exaure

Quero o silêncio como a minha única morada
O Silêncio sem paredes e sem cimento

Quero o Silêncio como minha última pátria
O Silêncio denso, pleno, frio, sussurrado pelo Vento

Quero o Silêncio dentro e quando ele for encontrado
Estarei em casa e triunfarei sobre o tempo.

(Com o olhar de um monge
budista
Miro relógios e vejo as pessoas neles
espelhadas
E sinto na alma uma compaixão
Ou algo parecido por não ser um monge
Mas como um monge perceber o quanto longe
Está a humanidade de si mesma)




(21 de julho de 2017)
I.

uma divindade caminha pela tarde
feliz apenas por estar
sob o sol tênue que arde
levemente por sobre pupilas violetas


II.

minha verdade, é a divindade quem me dá
e, sigo feliz pela tarde,
feliz apenas por caminhar
sol ameno sobre o pensamento
meu corpo meu único instrumento
e foi a divindade quem me deu.
e, feliz daquele que leu
o que o poeta decanta
que sua palavra encanta
qualquer alma que entristeceu





In: Deus e outras coisas. Acervo EDA, nº 541415.