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Hoje eu estou entre silêncios e espelhos
Dentro de mim um lusco-fusco joga
Com imagens de espectros e de sonhos
Um jogo lúdico mas um tanto triste
E disso tudo podemos perceber
O denso escuro dessa matéria sutil tanto
Que se chama alma...
.
Rio, 1º de outubro, 2016
Ouvir da pedra o seu silêncio. Contemplar. Aprender da pedra o quanto pedra somos. Porém: o quanto água pensamos, por imagens e palavras fluidas. Portanto, permitir sempre que se desfaça a estrutura rígida de nós mesmos.
as pedraS . . .
entre uma coisa e
outra
resta o
rosto de
Deus
réstia de luz no
rastro frio da imensidão
----- × -----
entre tantas coisas esquecidas
essa triste criança escondida
ao fundo de um sótão
tão só se ela não escuta
de nós qualquer resquício
de voz
----- × -----
nenhum astro se mostra
mais do que suas pegadas pequenas
no espaço denso da escuridão
----- × -----
foi um poeta que pintou
no manto da noite
todos os luzeiros em suspensão
27 de setembro de 2016.
outra
resta o
rosto de
Deus
réstia de luz no
rastro frio da imensidão
----- × -----
entre tantas coisas esquecidas
essa triste criança escondida
ao fundo de um sótão
tão só se ela não escuta
de nós qualquer resquício
de voz
----- × -----
nenhum astro se mostra
mais do que suas pegadas pequenas
no espaço denso da escuridão
----- × -----
foi um poeta que pintou
no manto da noite
todos os luzeiros em suspensão
27 de setembro de 2016.
tem umas dores que são tão grandes que nem parecem ser dor.
devem ser dessas dores de só existir, apenas,
dessas dores que nos abatem quando
as coisas em volta param de nos dizer.
dessas dores que explodem no silêncio,
dentro, surdas...
e ninguém lá fora ouviu tudo dentro de nós desabar
,
ou talvez sejam dessas dores de não se pertencer mesmo
ao mundo em volta que é estrangeiro,
e ao mundo dentro que não mais reconhecemos
e perguntamos quem destruiu nossa casa de nós mesmos
quando as paredes deveriam ser indestrutíveis porque eram
paredes de sonhos e vento,
porque eram
sólidas assim tanto
como as calçadas do sonho pelas cidades do sono...
devem ser dessas dores de só existir, apenas,
dessas dores que nos abatem quando
as coisas em volta param de nos dizer.
dessas dores que explodem no silêncio,
dentro, surdas...
e ninguém lá fora ouviu tudo dentro de nós desabar
,
ou talvez sejam dessas dores de não se pertencer mesmo
ao mundo em volta que é estrangeiro,
e ao mundo dentro que não mais reconhecemos
e perguntamos quem destruiu nossa casa de nós mesmos
quando as paredes deveriam ser indestrutíveis porque eram
paredes de sonhos e vento,
porque eram
sólidas assim tanto
como as calçadas do sonho pelas cidades do sono...
PLATINA
há um charme inigualável nos dias chuvosos,
bem como, algo de saudade nos dias de sol,
uma falta que nem se sabe...
INFINITO
e
mergulhávamos no céu como
sapos mergulhavam no lago
e éramos tanto estrelas quanto o corpo da noitee sua pele de lágrimas infinitas congeladas no tempo
e seu torpor de eternidade quanto crianças distraídas
nossos olhos metálicos
e um silêncio de eras que mora em nós e espera
um silêncio de estrelas e lago
pra mergulhar
somos o infinito quando abrimos mão de tudo
2 de dezembro de 2012.
ENQUADRAMENTO
pela manhã
frio de serra
janela cerrada
a pele do dia gélida
xícara à espera do café
tilintam talheres na cozinha
um tílbure toca aros e pedras
na memória do vidro
o senhorio sabe de cristais e lustres
sua senhora conhece de castiçais
um cachorro ignora de vento
mundo em moldura
tempo em quadro de celulose.
janela erguida:
um aceno ao cocheiro
uma buzina de fusca,
esticar de correias
a espreguiço matinal
(Janela em Ouro Preto, em agosto de 201?)
.
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
RESSONÂNCIAS
1.
algumas cadeiras rangem
de uma forma diferente como
se em outra encarnação das coisas
elas tivessem sido cordames
de embarcações fantasmagóricas
2.
se as paredes têm ouvidos
eu não sei...
mas que têm vozes presas
em seu arcabouço, isso têm.
daí toda a sua solidez
no tanto de vozes
que tiverem
IN: Deus, e outras coisas, Acervo EDA
talvez
palavras demais debates demais
projetam-nos para fora e muito
longe
e
longe assim demais
faz-se dura difícil árdua a
volta.
quem você era antes
dessas palavras todas que lhe cercam
essa alma que se esconde
por detrás de tantas sílabas
cor de cinza
cor de telha
cor de tudo-quando-foge
?
.
31 de outubro de 2014
[ RUGOSIDADES]
pode ser que uma viela
ao fundo
exploda em pétalas carmim
nestas cidades históricas
onde fantasmas posam
para fotos de turistas.
pode ser que uma árvore
frondosa
suporte um bando de pardais
que se aninham ocultos
para cagar na cabeça
dos inconfidentes.
pode ser que uma rua
deixe que lhe cruze
uma dama com vestes de outrora
a jogar charme para um mancebo
que sorvia café à sombra do alpendre.
-- prodígios do espaço urbano
com suas rugosidades
.
Rio, outubro de 2013.
ao fundo
exploda em pétalas carmim
nestas cidades históricas
onde fantasmas posam
para fotos de turistas.
pode ser que uma árvore
frondosa
suporte um bando de pardais
que se aninham ocultos
para cagar na cabeça
dos inconfidentes.
pode ser que uma rua
deixe que lhe cruze
uma dama com vestes de outrora
a jogar charme para um mancebo
que sorvia café à sombra do alpendre.
-- prodígios do espaço urbano
com suas rugosidades
.
Rio, outubro de 2013.
SEMELHANTES
os semelhantes falam uma língua
muda
quando, degredados, se encontram na
urbe
e, apenas com os olhares,
cumprimentam-se
e, na língua nativa se reconhecem
compatriotas de outro lugar
respeitam-se e, mesmo que,
de ofícios distintos
prestam mútuas reverências
com gestos invisíveis aos outros
transeuntes.
e há mendigos, há poetas, há ladrões,
todos degredados de uma pátria que
não é
essa pátria ensolarada que os
confina
e há bêbados, e músicos, e
seguranças de padaria,
e engraxates, e garis, e
mulheres-loucas
todos degredados neste presente
urbano, alheio,
todos degredados de sua pátria longínqua,
dentro...
TERRITÓRIOS
há vários territórios dentro
de um território só e
o importante é se a alma habita
habitar não é ter lugar
mas apenas estar
no espaço de um tempo
onde se sente no quando
habitando em si mesmo
e
mesmo sem lugar
se encontra
e talvez até um endereço fixo
coincida
há vários territórios dentro
desse território tempo
casa de quem apenas está
junto de si próprio e não alheio,
ao tempo de uma ação
e em sincronia
com os passos invisíveis da alma
por entre cômodos desta casa invisível
de nossa residência-mesmo.
e não há logradouro para nossa habitação
(Rio, 18 de setembro de 2013)
METEOROLOGIA
aqui, em baixo desse duelo de sol e nuvem
devemos perceber o quanto água somos
e aprender a sentir quando
uma tempestade se aproxima
LEVEZA
a dor de uma falta
botões natimortos e belos
no jardim que havia.
e nuvens pesadas passam
alheias,
imunes
.
SEDA
aquela folha minha ilha
e o que mais couber ao olho
cada pétala uma tarde
ao que pólen toda luz.
lagartas são meus dedos
na fria seda de seu rosto
27 de dezembro de 2007
ABISMO
preciso de um lance
que me jogue
pra fora do alcance
de mim mesmo
uma estação fora do mapa
um trem fora do trilho
um espaço fora do tempo
um tempo fora de si
preciso de um lance
que desate o laço
de minha lucidez e
de todo santo-dia...
preciso dessa rigidez do delírio
contra a dureza das convenções
preciso
de flores plantadas no abismo
até que um rio corra por entre
esse vazio duro que nos cerca.
o abismo
.
.
.
COMPOSIÇÕES (Haicais)
Composição
algo de algazarra a água
o céu de estrelas bailantes
o bambuzal dobra o tempo
Composição mista I
gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa limpa com atraso
mendigo na rua contrapé de vento
Composição mista II
gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa estende o dia no varal
mendigo na rua contrapé de vento
in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA
POLÍMEROS
há várias vidas dentro de uma vida.
o que não há é uma alma de plástico
pra substituir nossa alma
em caso de desgaste excessivo
(HOMENAGEM A COCTEAU E MICHEL ÂNGELO)
coração terminado em pedra
calcário banhado do mar morto
como podes ainda bater no peito?
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