as pedraS . . .

em uma cidade onde so-
mente ideogramas nas
tabuletas e letreiros
uma alma ocidental e vagante
sem qualquer reflexo de
seu idioma e sua origem
mergulhava na luz do dia
e se transformava em dia
sutil matéria de vida


( 30 de setembro de 2016)



 
(Uma fármacia de manipulação em Yiwu, China -- outubro/ 2015)
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'


frio azul...
mas do fundo de uma rua sua
lembrança memória nua
sua alma de alvorada
viva e cálida memória
na pele

vento em torvelinho numa
praça fria e desfolhada
e um leve arrepio no espírito
por um leve desejo de
não mais regressar



'
B. Aires, 2 de setembro, 2016





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Hoje eu estou entre silêncios e espelhos
Dentro de mim um lusco-fusco joga
Com imagens de espectros e de sonhos
Um jogo lúdico mas um tanto triste
E disso tudo podemos perceber
O denso escuro dessa matéria sutil tanto
Que se chama alma...

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Rio, 1º de outubro, 2016
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Tem dias nos quais o herói cai
Mas se levanta ao fim do dia. . .


Herois não possuem direitos
Além de sua prerrogativa de resistir


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13 de julho, 2015
entre uma coisa e
outra
resta o
rosto de
Deus
réstia de luz no
rastro frio da imensidão

        ----- × -----

entre tantas coisas esquecidas
essa triste criança escondida
ao fundo de um sótão
tão só se ela não escuta
de nós qualquer resquício
de voz

        ----- × -----

nenhum astro se mostra
mais do que suas pegadas pequenas
no espaço denso da escuridão

        ----- × -----

foi um poeta que pintou
no manto da noite
todos os luzeiros em suspensão




       27 de setembro de 2016.
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no lume da vela
em seu quarto em penumbra
o humilde gênio vislumbra
o
mundo...

arauto do porvir
determinado e mudo
em sua oficina oculta
todo o futuro se modela...

e no espaço da noite
somente a Lua como testemunha
e uma silente coruja
que num conta nada
para ninguém

.

21 de setembro de 2016
tem umas dores que são tão grandes que nem parecem ser dor.
devem ser dessas dores de só existir, apenas,
dessas dores que nos abatem quando
as coisas em volta param de nos dizer.
dessas dores que explodem no silêncio,
dentro, surdas...

e ninguém lá fora ouviu tudo dentro de nós desabar
,

ou talvez sejam dessas dores de não se pertencer mesmo
ao mundo em volta que é estrangeiro,
e ao mundo dentro que não mais reconhecemos

e perguntamos quem destruiu nossa casa de nós mesmos
quando as paredes deveriam ser indestrutíveis porque eram
paredes de sonhos e vento,
porque eram
sólidas assim tanto
como  as calçadas do sonho pelas cidades do sono...



PLATINA




há um charme inigualável nos dias chuvosos,
bem como, algo de saudade nos dias de sol,
uma falta que nem se sabe...




INFINITO




e mergulhávamos no céu como sapos mergulhavam no lago
e éramos tanto estrelas quanto o corpo da noite
e sua pele de lágrimas infinitas congeladas no tempo
e seu torpor de eternidade quanto crianças distraídas

nossos olhos metálicos como o firmamento
e um silêncio de eras que mora em nós e espera
um silêncio de estrelas e lago
pra mergulhar como sapos no escuro do tempo.

somos o infinito quando abrimos mão de tudo


                                               2 de dezembro de 2012.

ENQUADRAMENTO



pela manhã
frio de serra
janela cerrada
a pele do dia gélida
xícara à espera do café

tilintam talheres na cozinha
um tílbure toca aros e pedras
na memória do vidro

o senhorio sabe de cristais e lustres
sua senhora conhece de castiçais
um cachorro ignora de vento

mundo em moldura
tempo em quadro de celulose.

janela erguida:
um aceno ao cocheiro
uma buzina de fusca,
esticar de correias
a espreguiço matinal







(Janela em Ouro Preto, em agosto de 201?)


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IN:  32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.

RESSONÂNCIAS



1.

algumas cadeiras rangem
de uma forma diferente como
se em outra encarnação das coisas
elas tivessem sido cordames
de embarcações fantasmagóricas

2.

se as paredes têm ouvidos
eu não sei...
mas que têm vozes presas
em seu arcabouço, isso têm.
daí toda a sua solidez
no tanto de vozes
que tiverem



IN: Deus, e outras coisas, Acervo EDA



talvez
palavras demais debates demais
projetam-nos para fora e muito
longe
e
longe assim demais
faz-se dura difícil árdua a
volta.

quem você era antes
dessas palavras todas que lhe cercam
essa alma que se esconde
por detrás de tantas sílabas
cor de cinza
cor de telha
cor de tudo-quando-foge
?

.
31 de outubro de 2014



[ RUGOSIDADES]


pode ser que uma viela
ao fundo
exploda em pétalas carmim
nestas cidades históricas
onde fantasmas posam
para fotos de turistas.

pode ser que uma árvore
frondosa
suporte um bando de pardais
que se aninham ocultos
para cagar na cabeça
dos inconfidentes.

pode ser que uma rua
deixe que lhe cruze
uma dama com vestes de outrora
a jogar charme para um mancebo
que sorvia café à sombra do alpendre.

-- prodígios do espaço urbano
com suas rugosidades

.
Rio, outubro de 2013.


SEMELHANTES




os semelhantes falam uma língua muda
quando, degredados, se encontram na urbe
e, apenas com os olhares, cumprimentam-se
e, na língua nativa se reconhecem
compatriotas de outro lugar

respeitam-se e, mesmo que,
de ofícios distintos
prestam mútuas reverências
com gestos invisíveis aos outros transeuntes.

e há mendigos, há poetas, há ladrões,
todos degredados de uma pátria que não é
essa pátria ensolarada que os confina

e há bêbados, e músicos, e seguranças de padaria,
e engraxates, e garis, e mulheres-loucas
todos degredados neste presente urbano, alheio,
todos degredados de sua pátria longínqua, dentro...


TERRITÓRIOS



há vários territórios dentro
de um território só e
o importante é se a alma habita

habitar não é ter lugar
mas apenas estar
no espaço de um tempo
onde se sente no quando
habitando em si mesmo
e
mesmo sem lugar
se encontra
e talvez até um endereço fixo
coincida

há vários territórios dentro
desse território tempo
casa de quem apenas está
junto de si próprio e não alheio,
ao tempo de uma ação
e em sincronia
com os passos invisíveis da alma
por entre cômodos desta casa invisível
de nossa residência-mesmo.

e não há logradouro para nossa habitação


(Rio, 18 de setembro de 2013)


um desprendimento, um desprendimento tanto
das amarrras dos desejos
e esse pássaro preso do espírito ascende aos céus
de céus que estão aqui em baixo mesmo


.
3 de outubro de 2013




METEOROLOGIA



aqui, em baixo desse duelo de sol e nuvem
devemos perceber o quanto água somos
e aprender a sentir quando
uma tempestade se aproxima


LEVEZA



a dor de uma falta
botões natimortos e belos
no jardim que havia.

e nuvens pesadas passam
alheias,
imunes

.

PÉTALA

: .
um pouco de sinceridade
seria uma pétala de cor
nesse charco escuro denso
que ficou

GOLPE DE VISTA


sou apenas movimento
o corpo que você vê
não é o corpo que se vê

desastre do olhar




.

SEDA


aquela folha minha ilha
e o que mais couber ao olho

cada pétala uma tarde
ao que pólen toda luz.

lagartas são meus dedos
na fria seda de seu rosto




27 de dezembro de 2007


ABISMO



preciso de um lance
que me jogue
pra fora do alcance
de mim mesmo

uma estação fora do mapa
um trem fora do trilho
um espaço fora do tempo
um tempo fora de si

preciso de um lance
que desate o laço
de minha lucidez e
de todo santo-dia...

preciso dessa rigidez do delírio
contra a dureza das convenções

preciso
de flores plantadas no abismo
até que um rio corra por entre
esse vazio duro que nos cerca.

o abismo

.
.

.

mudar o modo de ver
modular o mundo do ver
até que nâo se veja mais
aquele mundo
que nâo muda ao nosso ver

: ARTE?...

COMPOSIÇÕES (Haicais)


Composição

algo de algazarra a água
o céu de estrelas bailantes
o bambuzal dobra o tempo



Composição mista I


gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa limpa com atraso
mendigo na rua contrapé de vento



Composição mista II


gato desenha uma fuga na parede
dona-de-casa estende o dia no varal
mendigo na rua contrapé de vento



in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA