Ouvir da pedra o seu silêncio. Contemplar. Aprender da pedra o quanto pedra somos. Porém: o quanto água pensamos, por imagens e palavras fluidas. Portanto, permitir sempre que se desfaça a estrutura rígida de nós mesmos.
as pedraS . . .
RESSONÂNCIA
todo mal que está em volta
se intensifica e se reforça
quando encontra outro mal
que está dentro da gente
DAS DIPLOMACIAS...
o tempo todo somos convocados
a ser diplomatas em nosso país estrangeiro
onde somos naturais e forasteiros
dentro de nós
fora de tudo que é nacional
e tudo em volta é rústico e alheio
os modos duros e as intenções resinosas
de mesquinhez e interesses...
e somente uma embaixatriz da delicadeza
pode nos dar a certeza
de que ainda podemos ser nós,
e estar nem sempre estando
mas nunca deixar-se muito tempo
fora de si mesmo e em órbita
na urbe romana e estrangeira
de nossa terra natal
(Rio, maio de 2012)
a ser diplomatas em nosso país estrangeiro
onde somos naturais e forasteiros
dentro de nós
fora de tudo que é nacional
e tudo em volta é rústico e alheio
os modos duros e as intenções resinosas
de mesquinhez e interesses...
e somente uma embaixatriz da delicadeza
pode nos dar a certeza
de que ainda podemos ser nós,
e estar nem sempre estando
mas nunca deixar-se muito tempo
fora de si mesmo e em órbita
na urbe romana e estrangeira
de nossa terra natal
(Rio, maio de 2012)
3 HAICAIS...
Xadrez
um gatinho preto
um gatinho branco
o tabuleiro a céu-aberto
.
,
Reflexo
riso estampado no vidro
tempo de areia líquido
um beijo estala vivo
.
Templo
no alto do morro o lago
a pele fria do tempo
o gato crespo ressona
in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA
um gatinho preto
um gatinho branco
o tabuleiro a céu-aberto
.
,
Reflexo
riso estampado no vidro
tempo de areia líquido
um beijo estala vivo
.
Templo
no alto do morro o lago
a pele fria do tempo
o gato crespo ressona
in: Deus, e outras coisas. Acervo EDA
olhos de ameixas maduras fendidos ao Tudo.
bebia café pelas orelhas hirtas
e propunha novas tramas com novelo de lã:
destecia o destino,
emaranhava o futuro.
o presente era malha vazada
à luz de possibilidades.
sabia da preguiça por herança.
seu pai fora mestre de obras:
construía alamedas de telhas,
ensinava passarinho a morar melhor
bebia café pelas orelhas hirtas
e propunha novas tramas com novelo de lã:
destecia o destino,
emaranhava o futuro.
o presente era malha vazada
à luz de possibilidades.
sabia da preguiça por herança.
seu pai fora mestre de obras:
construía alamedas de telhas,
ensinava passarinho a morar melhor
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
PELÍCULA
sapo novo com'estrelas no lago.
seu mergulho cadente
na orquestra cintilante
repente
na harmonia celestial.
sapo velho masca goma do tempo
estourando bolas de acaso
onde não momentos.
ninguém disse que estrelas são vagalumes mortos.
um peixe belisca a tez do céu
o maestro de mármore ondula
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
BISTRÔ
tábua de frios...
e o mendigo lá fora
chove.
restaurante cheio,
todos comem,
ninguém se comove...
tábua de frios
PARA O DEUS QUE OLHA DE ESGUELHA
porque em uma hora nascer,
já é ter sido em alguma hora nascido,
mesmo que em hora tão longínqua,
longe tanto que impossível de ser
e o tempo vem, implacável, devorar
todas as horas
devorando todas todo-tempo,
por fim devorando a si próprio,
cujo corpo é de horas feito
o tempo é esse algo impossível,
porque nasce para dentro de si mesmo,
é uma cobra, sim, que se come a si próprio
` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` sempre,
que se engloba no tanto de ponto,
que na fome de si próprio,
atinge o mínimo absoluto,
e continua oco
e sua pele é cercada de suas vísceras,
e suas vísceras têm muito gosto de hora
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
BIODEGRADÁVEL
no mangue, muitos sacos plásticos pousam nas árvores
ao fim do dia
e tudo fica salpicado de belas garças.
quando garrafas pet aglomeradas vêm às margens,
os ribeirinhos lançam as redes
e é lindo de ver o cardume verdinho prateando.
e tem carcaças de automóveis nodosas que dão até ninhos
com copas de capôs que abrigam da chuva.
nas águas gordas da baía se vê o bailado dos entulhos,
momento em que as crianças se debruçam das barcas
para contemplar o nado sincronizado e eterno dos botos
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
uma salva de silêncio fecha o dia
a rua abre como um fecho éclair
facho claro feixe de luzes de latarias
fluida como modorra que corre no olhar
do motorista
o corpo inerte do chauffeur
é o próprio corpo o fim último do labor
entalado nos lábios da rua,
o corpo grita num abafo
mas engrena.
foi dada ao homem a chave do dia
porém as portas intransponíveis dos vãos de ruas
abertas
quando cada movimento um aborto
uma consciência se acomoda
paraplégica numa poltrona
e temos gamas de cores gritantes nas telas
tênues tons de timpânicas vozes
a consciência entalada
na abertura da rua como fecho.
há lamúria por trás do sorriso
há uma faca sangrando a luz
pontiaguda no cerne da luminescência
há uma salva de silêncio porém
no dia que se abre,
um clarim claro
no escuro-ainda
a rua abre como um fecho éclair
facho claro feixe de luzes de latarias
fluida como modorra que corre no olhar
do motorista
o corpo inerte do chauffeur
é o próprio corpo o fim último do labor
entalado nos lábios da rua,
o corpo grita num abafo
mas engrena.
foi dada ao homem a chave do dia
porém as portas intransponíveis dos vãos de ruas
abertas
quando cada movimento um aborto
uma consciência se acomoda
paraplégica numa poltrona
e temos gamas de cores gritantes nas telas
tênues tons de timpânicas vozes
a consciência entalada
na abertura da rua como fecho.
há lamúria por trás do sorriso
há uma faca sangrando a luz
pontiaguda no cerne da luminescência
há uma salva de silêncio porém
no dia que se abre,
um clarim claro
no escuro-ainda
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
POMBOS
a tarde é chapa de metal escovado
na cornija de ferro alinhados,
arrulham aço
e ciscam ranhuras de zinco.
um homem parado no sinal
toma chuva
enquanto um táxi toma café
e um ambulante toma cinco real.
o dia veste malha
de gotas miúdas
trançadas na queda.
a menina veste um sorriso
e um lábio vermelhinho
pra esquentar os dentes.
limalhas de ferro na moela
trituram o dia com facilidade.
um transeunte pensativo,
voando gaivota,
toma titica.
pombos digerem a rigidez das coisas
e cagam
em nossas cabeças.
sacodem a cauda
e alçam vôo
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
PELORINHO
Pelas ladeiras do Pelô
Perambulam todas as cores
Peles e pandeiros
Pessoas e tambores
Pelorinho não mais existe
Passado pelo tempo desgastado
Porém o calçamento resiste
Pneus agora terminam de polir
Pedras que testemunharam pretos
Pagando por erros alheios
Prostrados no vigor da raça
Pedintes se misturam à multidão
Povo que suporta o legado
Personagens atuais do passado triste
Prole de quem sobreviveu à escravidão
Prisoneiros de um Brasil manchado
Proscritos no país das migalhas
Pretos
pobres
Pedras
Pisadas por tênis e sandálias
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
perante a grandeza de tudo somos nada
e boquiabertos bebemos estrelas
e solfejamos o silêncio em devota adoração
e cutucamos o intangível como que na infância
e tudo é apenas tato.
porque carregamos um vazio
tudo nasce de nós
e somos nada.
a tangibilidade de tudo é o parentesco
entre todas as coisas,
e ela não tem corpo,
como o nada.
a presença de Deus é uma ausência absoluta
IN: 32 POEMAS PARA CADA COISA. Ed. Confraria do vento.
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